Quarta, 18 de Junho de 2008
Arquivo Diário
Arquivo Diário
Publicado por Fausto Junior em 18 Jun 2008 | sob: Notícias
Mensagem de Orlando Senna ao se afastar da direção da EBC - Empresa Brasil de Comunicação:
Prestando contas
Companheiros da atividade audiovisual (trabalhadores da luz, como diria
Fernando Birri):
Estou me afastando da direção geral da EBC-Empresa Brasil de Comunicação,
operadora da TV Brasil, após oito meses de intenso trabalho e muitas
dificuldades em sua difícil fase de implantação. Considerei essa missão, a
mim confiada pelo presidente Lula, como uma extensão da minha gestão
enquanto Secretário do Audiovisual do MinC (2003/2007), sob a regência do
ministro Gilberto Gil. Uma extensão das políticas públicas voltadas para a
televisão e para as convergências tecnológicas, midiáticas e empresariais da
comunicação eletrônica de massa que foram implementadas pela Secretaria do
Audiovisual.
Essas políticas, priorizadas pelo governo, estiveram focadas desde 2003 ‹
meu primeiro ato como secretário foi extinguir o Canal Cultura e Arte, um
programa do MinC para canais fechados, que ninguém via, e anunciar as ações
voltadas para a televisão aberta e para a televisão pública, em seguida
implementadas e hoje em execução. Ações norteadas pela criação e aplicação
de novos modelos de negócios, adequados ao cenário audiovisual que estamos
vivenciando em escalas nacional e planetária, concretizadas em programas
como DOCTV, DOCTV Ibero-americano, o futuro DOCTV Língua Portuguesa,
Revelando os Brasis, Documenta Brasil, Banco de Documentários da América
Latina, Jogos BR (videogames), Programadora Brasil, Programa Setorial de
Exportação TV e outros.
A ação principal desse foco New Media foi, naturalmente, projetar um sistema
de comunicação pública de âmbito nacional, trabalho realizado no período de
quatro anos, com participação direta das emissoras e organizações dos campos
público e privado, produtores independentes e regionais, academia,
especialistas em comunicação e as diversas áreas do governo envolvidas no
assunto ‹ movimento que culminou com o Fórum Nacional de TVs Públicas, em
maio de 2007, palco da decisão e do anúncio do presidente Lula de criar a TV
Brasil (na verdade, a EBC, operadora de emissoras de TV e rádio e de uma
plataforma web). A missão de instalar a EBC foi entregue pelo presidente
Lula à Secom-Secretaria de Comunicação Social e ao recém empossado ministro
Franklin Martins.
Essa meta foi alcançada graças à tenacidade e à firmeza do ministro Gil, do
secretário executivo do MinC Juca Ferreira e de uma equipe de jovens
gestores públicos de alto quilate, dos quais devo mencionar Manoel Rangel,
Mário Diamante, Alfredo Manevy, Sérgio Sá Leitão, Paulo Alcoforado, José
Araripe e, deixados por último para serem destacados, Leopoldo Nunes e Mário
Borgneth. A minha atuação como Secretário do Audiovisual, comandando essa
equipe que gestou a TV Brasil, motivou o convite dos ministros Gil e
Franklin Martins para que participasse, também, na implantação do projeto,
convite igualmente dirigido a Leopoldo Nunes e Mário Borgneth.
Apesar das grandes dificuldades dessa fase de implantação da EBC,
conseguimos nesses oito meses montar as bases de uma rede pública de TV
envolvendo todos os Estados, conformar um projeto de programação de alto
nível, estabelecer as linhas mestras do projeto tecnológico e do
planejamento de investimentos e execução orçamentária. Também teve início a
renovação dos conteúdos que herdamos da TVE, com novos programas
jornalísticos, nova linha de documentários (África, América Latina e Ásia) e
ampla faixa para filmes nacionais de todos os gêneros. Após vários atrasos
burocráticos (um dos males que assolam a empresa), está previsto para
setembro o início de uma seqüência de lançamentos de novos programas, sob a
coordenação de Leopoldo Nunes, diretor de Programação e Conteúdos.
Deixo a EBC por discordar da forma de gestão adotada pela empresa que, entre
outros equívocos, concentra poderes excessivos na Presidência, engessando as
instâncias operacionais, que necessitam de autonomia executiva para produzir
em série, como em qualquer TV. Melhor: como em qualquer empresa que opera
emissoras de TV e rádio, agência de notícia, web e outros serviços
audiovisuais, que é o caso da EBC. Uma forma de gestão que induziu a
exoneração de Mário Borgneth, o excepcional articulador e executivo que
organizou e coordenou o seminal Fórum de TVs Públicas e que, como diretor de
Relacionamento da EBC, nesses oito meses, montou a estrutura de uma rede com
cobertura em todo o País, baseada em novos modelos de negócio e em uma
arquitetura horizontal, sem o verticalismo das redes comerciais. Uma decisão
com a qual não posso concordar.
Minha saída está motivada pela consciência de que, na forma de gestão
adotada, a Direção Geral, cargo que ocupei, não está provida da autonomia e
mobilidade necessárias para cuidar dos aspectos operacionais da empresa,
tornando-se, no atual desenho de gestão, praticamente desnecessária. Minha
atitude não significa descrença no projeto, do qual continuo ardente
defensor. A EBC terá de solucionar várias questões para alcançar o seu
objetivo de empresa pública de comunicação moderna, democrática e
financeiramente saudável. São questões no âmbito estrutural, na forma de
gestão e na definição de encaminhamentos, sobre os quais enviei documento às
instâncias superiores da empresa, no dia 30-05-2008, sugerindo ajustes e
chamando a atenção para o caráter urgente das providências. Realizados os
ajustes necessários, a EBC/TV Brasil poderá cumprir o objetivo de liderar
uma comunicação pública plural, isenta, inteligente, interativa e formadora
de cidadania.
Esses ajustes, esse processo de concretização do sonho de uma TV pública, de
uma comunicação plenamente pública, blindada contra os poderes e interesses
governamentais e econômicos, só chegará a bom termo (como todos sabemos) com
a participação direta da sociedade. Nesta fase crucial de instalação da EBC
a ação das entidades e das personalidades que se fizeram ouvir no Fórum de
TVs Públicas, na Carta de Brasília, na aprovação no Congresso se torna ainda
mais importante e decisiva. E que outras entidades e personalidades se somem
a esse labor de vigilância constante e atuação propositiva, garantindo a
presença majoritária da produção independente e regional na programação
televisiva, radiofônica e web, a horizontalidade da rede, a independência
editorial, o jornalismo isento, a vinculação da empresa a algum ministério
(lutemos, por exemplo, por uma fundação pública de direito privado).
Tenho a agradável sensação de dever cumprido e agradeço do fundo do coração
a confiança em mim depositada, nesses cinco anos e meio, por Gilberto Gil,
por Lula e pelos trabalhadores audiovisuais, elevando-me ao honroso posto de
Secretário do Audiovisual e, como extensão, à equipe de implantação da EBC.
Agradeço emocionadamente aos meus companheiros trabalhadores audiovisuais, a
quem me dirijo nesta mensagem, pelo ininterrupto respaldo que me
proporcionaram com seus apoios, oposições, idéias, inspirações, sugestões,
estímulos, cobranças, toda essa gama viva e pulsante de uma relação que
entendi, que senti, como uma sintonia de respeito e carinho.
Abraços e beijos de um velho roteirista e cineasta em disponibilidade na
praça.
Orlando Senna